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STF descobre que o mundo não é extensão da Praça dos Três Poderes

STF descobre que o mundo não é extensão da Praça dos Três Poderes

Há algo de tragicômico no constrangimento internacional vivido pelo Supremo Tribunal Federal nos últimos anos. Acostumado ao silêncio reverente de Brasília, o STF acredita que suas decisões possuem jurisdição moral planetária. Como se Nova York, Madri ou Roma fossem bairros administrativos do Distrito Federal. Não são.

O caso da deputada Carla Zambelli (PL) escancara isso mais uma vez. Após ser solta pela Justiça italiana, ela agora aguarda decisão da Corte de Cassação da Itália sobre um segundo pedido de extradição. Mas o detalhe importante não está apenas no processo. Está no recado. Tribunais estrangeiros não estão engolindo automaticamente as narrativas produzidas no ambiente político-judicial brasileiro.

E o episódio não é isolado.

O jornalista Allan dos Santos teve pedido de extradição rejeitado nos Estados Unidos. O também jornalista Oswaldo Eustáquio também encontrou resistência da Justiça espanhola. O padrão começa a ficar constrangedor demais para ser tratado como coincidência.

O que está acontecendo? Simples: fora do Brasil, ainda existe um temor institucional sobre perseguição política travestida de legalidade e "defesa da democracia". Tribunais estrangeiros observam com desconfiança prisões preventivas intermináveis, inquéritos sem fim, decisões monocráticas hipertrofiadas e uma estranha mistura entre investigação, acusação e julgamento concentrados nas mesmas mãos.

Na Europa e nos Estados Unidos, juízes não vivem dentro da bolha emocional de Brasília. Eles olham os autos friamente. E talvez enxerguem algo que parte da elite brasileira se recusa a admitir: o STF deixou de ser apenas Corte constitucional e passou a atuar, muitas vezes, como protagonista político, ator moral e polícia ideológica simultaneamente.

O problema é que a autoridade absoluta funciona bem em ambientes domesticados. Mas tropeça quando precisa enfrentar sistemas jurídicos acostumados a limites institucionais reais.

O Supremo brasileiro tornou-se poderoso demais internamente e, paradoxalmente, menos convincente externamente.

É quase uma ironia histórica. Durante décadas, o Brasil olhava para democracias ocidentais como referência de garantias individuais e segurança jurídica. Agora, são justamente essas democracias que parecem dizer ao Brasil: “Calma. Talvez vocês tenham ido longe demais.”

E isso dói.

Dói porque desmonta a narrativa de unanimidade moral construída em torno de certos setores do Judiciário. Dói porque expõe que decisões celebradas aqui como “defesa da democracia” podem soar, lá fora, como excesso de poder. E dói principalmente porque revela uma verdade indigesta: o STF pode ser temido no Brasil, mas não necessariamente respeitado sem questionamentos no exterior.